Quando o cooperativismo constrói cidades: a história dos bairros criados no ES
12/02/2026
Se você tem ou já realizou o sonho de conquistar a casa própria, imagine financiar um imóvel com um valor acessível e a partir de um projeto coletivo, mas sem intermediários tradicionais, como incorporadoras e construtoras com fins lucrativos. As cooperativas habitacionais tornam isso possível, pois buscam desburocratizar o acesso à moradia, especialmente para as famílias com menor poder aquisitivo.
Esse tipo de empreendimento começou a prosperar no Espírito Santo a partir do final da década de 1970. Isso porque em 1968 foi criado o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais do Espírito Santo (Inocoopes) - hoje chamado Inocoop, por meio do Banco Nacional de Habitação (BNH). Era uma empresa pública federal que buscava impulsionar o financiamento habitacional no Brasil, com foco na população de baixa renda.
O BNH surgiu em 1966 e, daí em diante, todas as cooperativas habitacionais precisavam contar com a assessoria de um Inocoop. Cada estado da federação tinha pelo menos um instituto do tipo, que era chamado de Agente para Atividades Complementares. Com a extinção do BNH, em 1986, essa obrigatoriedade acabou. No entanto, no Espírito Santo, os programas habitacionais cooperativos continuaram a ser desenvolvidos com a participação do Inocoop e com o apoio institucional do Sistema OCB/ES, a organização que representa as cooperativas capixabas.
O papel do Inocoop é orientar as cooperativas habitacionais, já que elas são formadas por pessoas com profissões variadas e sem experiência na contratação de construtoras e gestão de obras. Com esse respaldo técnico, as cooperativas habitacionais começaram a se multiplicar em terras capixabas, especialmente na Grande Vitória.
De acordo com o presidente do Inocoop, Aristóteles Costa Neto, nove municípios do estado contam com empreendimentos habitacionais construídos por cooperativas, dentro e fora da Região Metropolitana. São eles: Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Colatina, Ibiraçu, Linhares, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória.
Na capital e municípios vizinhos, o Inocoop produziu a maior parte dos empreendimentos. Como resultado, diversos bairros surgiram ou se desenvolveram a partir de cooperativas habitacionais: Barcelona, Castelândia, Chácara Parreiral, Eldorado, Laranjeiras, Parque das Gaivotas, Porto Canoa, São Diogo e Serra Dourada (I, II e III), na Serra; Araçás, Conjunto Militar (deixou de ser um bairro), Coqueiral de Itaparica (etapas de I a VII), Itapuã, Jardim Asteca, Jardim Guadalajara e Novo México, em Vila Velha; e Jardim Camburi e Jardim da Penha, em Vitória.
Esses são alguns dos locais que prosperaram após a chegadas de empreendimentos cooperativos. Um dos que gerou maior impacto social foi um projeto desenvolvido em Barcelona, onde foi formada uma cooperativa voltada para trabalhadores sindicalizados. Foram produzidas 3.112 casas do tipo embrião – que podem ser ampliadas posteriormente, de acordo com a renda da família -, com um, dois e três quartos.
“Todas as casas tinham o mesmo tamanho de terreno, o que permitia a pessoa ampliar sua moradia. A unidade de maior relevância social foi a unidade embrião composta de um cômodo, cozinha e banheiro e que atendeu a trabalhadores que ganhavam menos de um salário-mínimo”, recorda Aristóteles Neto.
Um ex-diretor do Inocoop, José Carlos Corrêa, guarda memórias desse momento, que revelam a transformação social gerada pelas cooperativas habitacionais. No livro “A Casa Edificada”, publicado em comemoração aos 30 anos do então Inocoopes, ele escreveu:
“Entreguei casas-embrião no Residencial Barcelona para chefes de família que ganhavam um salário-mínimo. Vi operários com lágrimas nos olhos receberem as chaves enquanto repetiam que não acreditavam que aquilo estava sendo possível. Atendi, em nossos postos de inscrição, casais de noivos que só dependiam da casa para iniciar um novo lar [...]. Todas eram pessoas que, como seus pais e avós, nunca tinham antes morado numa casa que fosse realmente delas”.
Na visão de Neto, isso só foi possível porque as cooperativas habitacionais funcionaram como reguladores de mercado. “Elas produziram unidades a preço de custo, com valores finais pelo menos 15% abaixo do mercado tradicional”, observa.
Importância do Inocoop no cenário capixaba
Já deu para perceber que a história das cooperativas habitacionais capixabas e do O Inocoop estão conectadas. Desde seu surgimento, o instituto desenvolveu 115 empreendimentos imobiliários no Espírito Santo e entregou mais de 41 mil moradias, ultrapassando a marca de 3 milhões de metros quadrados de obra construída e beneficiando mais de 40 mil famílias e 150 mil habitantes.
Mais de 15 cooperativas habitacionais foram orientadas pelo Inocoop no Espírito Santo. Muitas delas já foram liquidadas por terem atingido seus objetivos, ou seja, finalizaram a construção das moradias e as entregaram aos cooperados. O presidente da instituição destaca a importância dessas coops para a democratização do acesso à moradia.
“Junto com o Inocoop, elas produziram mais de 41 mil unidades. Nenhuma empresa produziu tanto em nosso estado. A história mostra que muitos capixabas passaram por uma unidade de cooperativa no início de suas vidas”, lembra Aristóteles Neto.
Com o passar dos anos, as cooperativas habitacionais foram reduzindo no estado. A chegada da pandemia de Covid-19, em 2020, fez com que o Inocoop cancelasse um empreendimento em Jardim Camburi. Desde então, o instituto está à procura de áreas que viabilizem novos empreendimentos.
“Com a dificuldade que as cooperativas habitacionais encontram para obter financiamento, a alternativa que existe é o chamado autofinanciamento. Enquanto isso não ocorre, estamos desenvolvendo produtos para a classe média, no formato de incorporação imobiliária”, informou o presidente do Inocoop.
Atualmente, nenhuma cooperativa habitacional está registrada no Sistema OCB/ES.
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