Série Princípios do Coop: participação econômica gera ciclo virtuoso de desenvolvimento
21/05/2026
“Sem o sentimento de dono por parte do cooperado, não existe cooperativa”. A afirmação do professor e pesquisador Gabriel Murad, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), resume a essência do terceiro princípio do cooperativismo: a participação econômica dos membros. Mais do que um conceito teórico, esse pilar garante que os cooperados contribuam para o desenvolvimento do negócio, acompanhem os resultados e participem das decisões sobre como os recursos serão utilizados.
A participação econômica começa na formação de capital, que permite ao associado ingressar na cooperativa e se tornar dono do empreendimento, assumindo direitos e deveres por meio da integralização. A outra vertente do terceiro princípio é direito às sobras, ou seja, à distribuição econômica dos resultados alcançados coletivamente.
Nesse ponto, segundo Murad, está outro grande diferencial das cooperativas: ao contrário das empresas tradicionais, esse retorno não é proporcional ao capital investido, mas à participação do cooperado nas operações. “Numa cooperativa, a forma de devolver o resultado para o associado acontece de forma justa. Como a coop não está trabalhando para acumular capital, mas para gerar resultado econômico para todos, uma parte dessas sobras vai para o fundo de reserva e a outra vai para o cooperado, que vai receber a sua participação nos resultados de acordo com o que ele trabalhou. Uma coop distribui o resultado pelo trabalho, não pelo capital”, explica o professor do curso de Gestão de Cooperativas da UFSM.
A origem do terceiro princípio está na Sociedade dos Pioneiros de Rochdale. Já naquela época, premissas como o juro limitado ao capital e a distribuição proporcional dos resultados orientavam o funcionamento da primeira cooperativa moderna. Essas diretrizes foram consolidadas na formulação atual do terceiro princípio – Participação econômica dos membros – durante a revisão realizada pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI) em 1995.
De acordo com o especialista, para que o terceiro princípio seja aplicado plenamente, a transparência é indispensável. O cooperado precisa acompanhar como os resultados são construídos, entender a destinação dos recursos – como os fundos de reserva e de ação social – e participar das decisões em assembleia. “O cooperado trabalha, gera resultado, acompanha todo o processo de como isso é feito, com clareza e apoio técnico, e depois decide-se de forma coletiva como esse recurso vai ser utilizado, seja devolvendo para o associado, seja reinvestindo na cooperativa ou apoiando a comunidade”, explica Murad.
Nesse contexto, a governança exerce um papel estratégico. Garantir regras claras, gestão profissional e uma relação próxima com o quadro social é essencial para que a distribuição dos resultados seja justa e gere impacto positivo para todos. “Quando falamos de gestão e governança, não se trata apenas do desempenho do negócio, mas da relação com o cooperado. Quanto mais satisfeito ele estiver, mais vai utilizar a cooperativa e ser fiel à ela, mais resultado é gerado e maior o retorno, em um ciclo positivo para todos”, analisa o pesquisador da UFSM.
Terceiro princípio na prática
Da Sicredi Região Centro RS/MG vem um exemplo prático de como a participação econômica fortalece o negócio e, ao mesmo tempo, gera benefícios diretos para os cooperados e para a comunidade. Em 2025, a instituição financeira cooperativa registrou resultado líquido de R$ 79 milhões e distribuiu mais de R$ 22 milhões entre seus 150 mil cooperados.
Segundo o presidente do Conselho de Administração da cooperativa, Pedro Ferreira, o terceiro princípio do cooperativismo promove um ciclo virtuoso. “Aqui o associado encontra investimentos e crédito com taxas justas e competitivas, além de mais de 300 soluções que geram renda e fazem o dinheiro circular na região, fortalecendo o negócio de cada cooperado. No aspecto social, quando o associado trabalha junto com a cooperativa, ajuda a gerar resultados que permitem desenvolver programas sociais locais que beneficiam diretamente a comunidade”, afirma.
Com sede em Santa Maria (RS) e atuação em mais 34 municípios do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, a Sicredi Região Centro RS/MG foi fundada em 1914 e é considerada a quarta cooperativa de crédito mais antiga da América Latina. De acordo com Ferreira, a continuidade e solidez dos negócios está diretamente relacionada ao sentimento de pertencimento e de responsabilidade coletiva dos cooperados.
Na cooperativa gaúcha, o terceiro princípio se materializa por meio de diferentes formas de participação econômica, que vão além da integralização da cota-capital. “Todos os anos realizamos o pagamento de juros sobre o capital do associado e também a distribuição das sobras após as destinações legais e estatutárias. Diferentemente dos juros, essa distribuição é proporcional ao uso dos produtos e serviços que o associado utiliza na cooperativa”, explica o dirigente.
Esse modelo faz com que a Sicredi Região Centro RS/MG se torne também uma geradora de renda nas comunidades onde atua. Ao compartilhar resultados com os associados, os recursos permanecem na região, movimentam a economia local e criam novas oportunidades de trabalho e investimento. Com isso, o terceiro princípio também gera um efeito multiplicador: a participação do cooperado fortalece a cooperativa, que, por sua vez, gera mais resultados, distribui benefícios e amplia o desenvolvimento econômico e social.
“O aumento do patrimônio traz solidez e proporciona à cooperativa condições de atender as necessidades dos seus associados para desenvolverem suas atividades econômicas, assegurando que os benefícios financeiros voltem para as pessoas que utilizam a cooperativa, fortalecendo a economia local”, ressalta Ferreira.
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Leia as matérias da série especial Princípios do Cooperativismo, sobre Adesão livre e voluntária e Gestão democrática.
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